Uma chance para Sofia

Por Iara Castellani

Finalmente chegamos em um tempo onde as dores do passado tornaram-se apenas lembranças que não ferem mais. Tempos de incertezas, de medos, de sustos: foram cinco cirurgias cardíacas e dois cateterismos até chegar aos quatro anos de idade. Passou.

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Sofia e família

Os sorrisos marotos, as risadas gostosas, as artes da inocência apagaram as lembranças difíceis e deram lugar a uma vida comum. Sem sobressaltos, nenhum de nós ficou com o pensamento neste tempo. Pelo contrário, quando nos pediram para escrever algo, tivemos que parar e vasculhar as lembranças em locais bem guardados, sob um certo esquecimento, onde a dor não tem mais acesso.

Lembro-me que um dia sonhei poder dar o anticoagulante para minha filha. Sonho estranho para tantas, mas que para mim representava bem o sucesso da última etapa cirúrgica.

Nem pareço a mesma mãe que tantas vezes entrou no hospital com a filha nos braços, constrangida por um pouco de timidez natural, um restinho só da jovem introvertida que vê sua intimidade exposta.

A vergonha de saber que tantos tinham pena de nós, hoje foi substituída por outra, muito mais leve, por ser reconhecida através dos comerciais da campanha em favor daqueles que salvaram a vida de minha filha.

Nunca desejei vê-la desta forma, fazendo algum tipo de propaganda, aparecendo para muitos. Mas abrimos exceção devido à nobreza do propósito e deixamos entrar em nossas vidas o prazer que este contraste entre a incerteza inicial e a felicidade atual nos trouxe.

Assim, é com grande prazer que inauguramos este espaço aberto para compartilharmos um pouco de nossa humanidade. Como mães de coração, hoje faço parte desta linda família que formamos.

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Sofia e família

A dor nos aproximou e esta proximidade com outros que vivem histórias parecidas tem sido nossa fonte inesgotável de cura e esperança.

Dividir o peso do medo nos faz mais fortes. E nos traz como objetivo ajudar a mudar a história de outras crianças que estão nascendo com o coração diferente, precisando de um “consertozinho”.

Nos dias de hoje, somente cinco em cada dez destas crianças têm acesso ao tratamento. Sabemos que perder um filho onde tudo se tentou não é fácil. Mas vê-lo partir sem ao menos ter tentado é inadmissível.

É necessário dar a todos que precisam, a “chance” de sobreviver. Como minha filha teve.

Iara Castellani
Médica, mãe da Sofia Emanoele –
Portadora de atresia pulmonar com septo íntegro.

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5 comentários em “Uma chance para Sofia

  • 01/05/2016 em 23:20
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    Ter contribuído para que Sofia transmita toda essa alegria, me faz FELIZ. Poder ajudar àqueles que precisam, me completa a VIDA!

    Um beijo Sofia

  • 04/05/2016 em 11:30
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    Que lindo Dra Iara, como é bom ver a Sofia bem. Parabéns a todos os profissionais do Incor, vcs são verdadeiros anjos!!! Deus os abençoe e ajude a fazer esse trabalho tão lindo.

  • 04/05/2016 em 22:09
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    Obrigada, doutor Valdester! Darei o beijo em nossa pequena.

  • 04/05/2016 em 22:10
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    Oi Katianne, obrigada pelo carinho.

  • 04/05/2016 em 22:12
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    Vcs deixaram um pouquinho de si e levaram um pouquinho de nós. Nossas historias se encontram e foram mudadas, para melhor. Grande abraço.

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